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"A humanidade pode se reinventar" Por Paulo Roberto, O Gladiador


Desafios para a Covid-19 marca uma virada na trajetória da humanidade. Já houve pandemias em outras épocas [1] como a peste bubônica em 1343, a cólera em 1817, a tuberculose em 1850, a varíola em 1896, a primeira versão da influenza em 1917, o tifo em 1918 e o próprio HIV em 1980. Todas elas ceifaram milhões de vidas nos primeiros anos ou até surgiram as vacinas ou os remédios. Mas nenhuma outra provocou em tão curto espaço de tempo alterações tão radicais no cotidiano de bilhões de pessoas. Nunca vivemos algo semelhante em dimensões planetária.

É inegável que a Covid-19 surgiu da mutação do coronavírus [2] que para adaptar-se as células humanas aproveitou-se das consequência dos desmatamentos, que expulsam animais selvagens de seu habitat, e do comércio de animais vivos sem qualquer cuidado sanitário. Pode-se afirmar que é resultado da lógica econômica centrada no lucro a qualquer preço, que não se importa com a vida, o meio ambiente ou o futuro das próximas gerações.

Instalada a pandemia, explicitou-se a profunda desigualdade social. No âmbito individual, enquanto alguns podem praticar o isolamento voluntário em lares protegidos, com abastecimento de água, luz, televisão à cabo e internet, outros sofrem com a demissão no emprego, a redução dos salários, a convivência de várias pessoas em casebres de um ou dois cômodos. Milhões de trabalhadores informais e mesmo os centenas de pessoas em situação de rua ficaram impossibilitados de batalhar pelo pão de cada dia em função do isolamento. A Covid-19 circulou pelo mundo nos corpos das classes sociais mais abastadas e, aos poucos, foi contaminando as comunidades das periferias onde, pela desigualdade, falta de acesso a testes e a serviços públicos precários, representa mortalidade bem maior.

Expôs também os equívocos da supressão das políticas sociais e do congelamento dos investimentos em seguridade e saúde, educação e assistência social. Com o desfinanciamento do Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, promovido nos últimos anos, o Brasil corre contra o tempo para reabrir hospitais fechados, reequipar unidades intensivas sucateadas, criar hospitais provisórios de campanha, recontratar profissionais de saúde, reequipar e apoiar as universidades públicas e a indústria nacional para a produção de testes, equipamentos de proteção, vacinas.

As sociedades que decidiram tratar a saúde como mercadoria, sucateando os sistemas de saúde estão pagando um alto preço por estas escolhas. Já aquelas que investem em saúde como um direito humano, em serviços públicos de qualidade, onde o estado não abre mão de seu papel de gestor dos interesses da coletividade, o impacto da pandemia tem sido bem menor. O capitalismo se demonstra biologicamente insustentável e as formas de enfrentar a pandemia profundamente desiguais. Isto porque o livre mercado somente opera os interesses do capital e não tem interesse ou capacidade de organizar e defender os interesses de toda da vida, do meio ambiente e da coletividade.

Como dito, a crise sanitária provocada pelo Covid-19 guarda estreita relação com a crise climática. Apesar dos sucessivos alertas do Painel Intergovernamental sobre Cambio Climático (PICC) [3] quase nada tem sido feito para mudar o atual modelo de desenvolvimento. As novas tecnologias não alteram de forma substancial a lógica de depredação da natureza.

A pandemia representa mais um importante sinal de alerta. Pela primeira vez a humanidade se viu frente a um inimigo comum. Por suas características, velocidade de contaminação e letalidade, a Covid-19 provocou a reflexão sobre o que estamos fazendo com todas as formas de vida no Planeta. Por isso, países, governos e até uma parcela de setores econômicos aderiram as iniciativas de isolamento social apesar dos inevitáveis impactos nas economias. Países inteiros fecharam as portas das fábricas, comercio, escolas e serviços públicos. Tudo em nome da preservação da vida. Nasceu uma consciência coletiva de que estamos todas e todos muito conectados e por isso, ou estamos todos seguros, ou ninguém estará.

Parte da humanidade já tinha a consciência dos limites do atual modelo capitalista e suas consequências sociais e ambientais. A insustentabilidade está na lógica de acumulação sem fim, exclusão social e de impactos ambientais irreversíveis. O capitalismo não consegue ser diferente. A própria ideia de riqueza só se sustenta desde que se aceite a existência da pobreza. O capitalismo tem sua gênesis no individualismo, na supremacia de uma minoria sobre os demais, na lógica do lucro em detrimento do outro, do bem comum e da própria vida.

Há alguns anos temos refletido sobre as mudanças estruturais em nossas sociedades. São transformações de alto impacto humano, econômico, social e ambiental. A revolução tecnológica é a mais profunda, alterando as formas de comunicação, do cuidado com a saúde, acesso a educação, a mobilidade das pessoas e mercadorias e revolucionando todos os processos produtivos substituindo grandes quantidade de trabalho por robôs e inteligência artificial. O modo como compreendemos a vida estão em vertiginosa transformação.

Mas estas transformações não tem alterado o atual modelo de acumulação de riquezas, de financeirização da vida e de exclusão social. Embora a revolução tecnológica crie as condições para câmbios efetivos na relação dos seres humanos entre si e destes com a natureza, estas mudanças não estão acontecendo. Pelo contrário, há centenas de estudos demonstrando que se os modelos de produção e consumo não alterarem os mecanismos que geram as desigualdades, será impossível dar acesso pleno as condições mínimas de manutenção da vida para humanidade sem gerar um colapso ambiental.

A pandemia do Covid-19 é um evento gravíssimo para toda humanidade, mas também representa uma oportunidade. Está na linha do horizonte a possibilidade concreta de que os movimentos gerados pelo Covid-19 de defesa da vida se mantenham como elemento orientador das futuras decisões. Se, contra um vírus não há qualquer dúvida que a vida está em primeiro lugar, da mesma forma deve-se decidir com este princípio ético em relação ao modelo econômico, a organização social, aos direitos das pessoas, a forma como nos relacionamos com o meio ambiente.

De uma forma inesperada a máxima de um outro mundo possível mostrou-se viável. Sempre soubemos que as decisões sobre o modo de vida são escolhas de pessoas, organizações, grupos, sociedades. A sociedade que temos é fruto destas escolhas que tem sido feitas. E faz um certo tempo que há uma consciência da insustentabilidade deste modo de vida em todos os segmentos. Com o Covid-19 boa parte da sociedade humana parou. Esta parada melhorou a qualidade do ar, deixou mais transparentes as águas dos oceanos, reduziu os acidentes de trânsito, reduziu a emissão dos gases de efeito estufa, pôs em xeque as teorias neoliberais e suas políticas. E, esta parada, em escala global é a demonstração de que é possível mudar. Temas como a desaceleração, o decrescimento, a distribuição de renda, a preservação ambiental podem ter espaço numa nova ética em defesa da vida. A humanidade pode se reinventar. E temos uma oportunidade para isso. Precisamos acreditar que as mudanças são possíveis e começar a nos articularmos local, nacional e internacionalmente. Cada movimento, luta específica, grupo de interesse, rede ou plataforma deve colocar-se ao lado desta mudança. Se não nos unirmos agora, podemos perder a janela de oportunidade que se abriu neste momento crucial da humanidade

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