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Nininho e Santana, nem Tostão e nem Pelé...

Atualizado: 6 de Ago de 2020


Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, transcorria o ano de 1946, nascia Severino dos Ramos Lins (apelidado pelo narrador Marcus Aurélio carinhosamente de “Fiapo de Ouro”). Franzino, baixinho, pele morena e olhar melódico, mas sempre feliz, assim cresceu o garoto Nininho. Quis o destino que o olhar clínico de Eurivaldo Guerra (Vavá), acompanhado do Presidente Heder Henriques do Botafogo de João Pessoa, o trouxesse para vestir a camisa gloriosa, que há dez anos amargava um jejum de títulos e embora com craques em suas fileiras como Chiclete, Marajó e Cia, caía constantemente frente ao domínio decano do futebol de Campina Grande, durante anos e anos de sofrimento. 1944 cidade de Recife, maternidade da encruzilhada, vinha ao mundo aquele que seria o parceiro maior de Nininho, Valdeci Santana (O príncipe Etíope , segundo Eudes Toscano ), amigos inseparáveis dentro e fora dos gramados e mais uma aposta do técnico Vavá , naqueles que formariam a dupla dinâmica de majestoso talento do Botafogo , o arco e a flecha ! Chegaram quase ao mesmo tempo em 1965 e a eles se juntaram Chico Matemático, o artilheiro Mor da história do clube, o grande Dissor vindo de Patos, o capitão Lando, Lúcio Mauro, Fernando e Lula dois grandes goleiros e o xerife Zezito. Com a equipe coesa e harmoniosa o comandante Vavá levou o Belo (ainda não tinha esse cognome) a conquistar o bicampeonato estadual, praticando um futebol digno de um vindouro tricampeonato paraibano (1968-69-70) e morreu prematuramente no dia 21 de novembro de 1969, aos 23 anos de vida.

A perda de Nininho, o Fiapo de Ouro, completou 51 anos. Ainda jovem, no início da década de 1965, o meia foi para João Pessoa defender o Botafogo-PB. Aquele meia franzino natural de Pernambuco , possuía talento incomum. Nininho jogava muita bola! Dos jogadores que vieram de outros estados para a Paraíba, até hoje, ele foi quem mais me impressionou – relembra o radialista laureado Eudes Toscano. Baixinho, franzino, mas muito liso e corajoso. Foi apelidado carinhosamente de “Fiapo de Ouro”. Na Paraíba nunca apareceu ninguém como ele, que o diga o zagueirão Braga, do Treze, truculento e duro na marcação atemorizava todos os rivais , menos Nininho. Ele ia para cima e conseguia ultrapassá-lo. O Botafogo-PB viu o futebol de Campina Grande dominar a década, com sete títulos do Campinense (1960-1965, 1967) e um do Treze (1966) , precisava findar esse ciclo . Nininho e Santana dividiam o mesmo apartamento.

Estudavam juntos. Uma lição de companheirismo e afinação! O Botafogo-PB saiu do jejum, venceu o Campeonato Paraibano em 1968 e 1969. O curioso nele é que você não sabia qual a perna preferida dele. Depois descobri que ele batia com as duas, mas nunca soube qual era a preferida, disse Eudes - Em 1965, o Guarani montou uma seleção para um amistoso contra o Botafogo-PB. Nininho tentou dar um banho em mim e eu tentei evitar o drible, mas acabei acertando um chute no rosto dele. Foi ali que nós nos tornamos amigos. Terminamos aquela partida abraçada. O maior jogador que vi, até hoje!– Afirma Eudes Toscano.

As crianças o amavam. Bicampeão paraibano, o Botafogo-PB vivia um grande momento na sua história. E aproveitando o ótimo momento do clube da capital, o governador João Agripino em 1969, contratou o lendário Santos de Pelé, que fazia excursão pelo Nordeste, para um amistoso no qual enfaixaria a equipe campeã da Paraíba. 14 de novembro de 1969, o Peixe, que, além de Pelé, também contava com Carlos Alberto Torres, Edu e Manoel Maria, foi até João Pessoa para a partida.

No Estádio Olímpico, hoje Vila Olímpica Paraíba, no Bairro dos Estados. O Santos venceu aquela partida por 3 a 0, com direito a gol de Pelé e dois de Manuel Maria. O destaque daquele jogo foi o gol de pênalti marcado por Pelé, o tento de número 999 na carreira do Rei do Futebol, que depois chegaria ao milésimo, no Maracanã, contra o Vasco. Anos depois, uma polêmica veio à tona. Um gol descoberto pelo jornalista Valmir Storti, na época da Folha de São Paulo, encontrou um tento perdido de Pelé, ainda pela Seleção Brasileira, contra o Paraguai, no Campeonato Sul-Americano Militar, em General Severiano, estádio do homônimo carioca. Estádio Olímpico José Américo de Almeida lotado, renda recorde de 47.000 cruzeiros, todo mundo foi ver aquele match que poderia sair o milésimo gol de Pelé, o maior jogador do mundo. Nininho era o destaque do futebol paraibano. Manoel Amaro de Lima, da Federação Pernambucana foi o árbitro. Botafogo-PB: Lula, Lúcio Mauro, Lando, Jório e Zezito, Valdeci Pereira (Odon) e Nininho (Valdeci Santana) Chico Matemático. Lulu, Lelé (Dissor) e Pibo (Liminha), O técnico era o bicampeão Vavá enquanto o Santos desfilaria com Jair Estevão (Pelé), Carlos Alberto, Ramos Delgado (Joel), Djalma Dias e Rildo, Clodoaldo (Marçal) e Lima (Bené), Manoel Maria, Edu (Jair Bala) Pelé (Luis Carlos ) e Abel (Edu) e o Técnico Antonino . Dias antes, o Botafogo enfrentou a equipe do Ceará e o Fiapo de Ouro faria seu último gol (de belo feitio) driblando vários adversários na derrota por 2x1 no estádio Olímpico.


Jovem e talento em excesso, Nininho, carregava consigo com muito incômodo, um problema de saúde, hemorroidas! Muitas vezes deixava de treinar para se recuperar. Mas nuca se abateu , ao contrário , quando entrava em campo, sempre se superava. Depois de enfrentar o Santos de Pelé, Nininho teve que ser internado às pressas e precisou passar por um procedimento cirúrgico. Naquela ocasião, poucos imaginavam que o dia 21 de novembro de 1969 seria fatal para a estrela botafoguense. Um choque anafilático em uma simples cirurgia levaria nosso Fiapo de Ouro! O improvável acontecia, Nininho morreu! O seu adeus precoce, aos vinte e três anos de idade, resultaria em luto na cidade de João Pessoa durante três dias. uma grande comoção tomou conta da Paraíba , todos clubes paraibanos se solidarizaram. O prefeito da época, Damásio Franca, custeou as despesas para levar o corpo dele para sua cidade natal, Jaboatão. O sepultamento foi lá. - Destaca Eudes Toscano. Quis ainda o destino que o elenco do Botafogo-PB chegasse ao tricampeonato estadual no ano seguinte, em 1970. É difícil precisar quantos gols o meia marcou pelo Botafogo-PB. Mas, para quem viveu naquele tempo, ninguém consegue esquecer o futebol desempenhado por Nininho. O fato é que na nossa terrinha nunca precisamos de Tostão e Pelé, nós tivemos Nininho, o Fiapo de Ouro e Santana, o Príncipe Etíope, quanta honra!


Fotos: arquivos


colaboração: Eudes Toscano e Marcos Aurelio

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